Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

Lua Cheia

 

     Olhando pela janela, vejo o vento agitar as copas das árvores de forma mais ou menos violenta, numa dança vertiginosa e descompassada. Um novo ritmo, um novo som, uma nova batida, uma nova melodia, uma nova dança. Neste fim de tarde o sol brilha intensamente entrando pelo meu quarto, atingindo o meu corpo com os seus raios, aquecendo-me. Mas por momentos o sol desaparece por entre as nuvens que persistem em cruzar os céus, escondendo a minha fonte de calor. E contudo, apesar das nuvens está um magnífico fim de tarde. Sinto a nostalgia de tempos passados invadir-me o pensamento e fixo o meu olhar na paisagem sem realmente fixar alguma coisa, olhando sem ver. Por momentos sinto-me feliz como se estivesse a viver novamente todos aqueles bons momentos que fizeram parte da minha vida e que já há muito tempo aconteceram. Por momentos, os meus lábios formam um sorriso sincero ao imaginar e reviver todos os sorrisos, todas as lágrimas de felicidade, toda a alegria, toda a inocência, todo o sentimento, todo o bater acelerado do coração que um dia experimentei.
     Contemplando este fim de tarde solarengo, sinto-me invadida de uma sensação de pura felicidade e de liberdade, pela lembrança de tempos passados que definiram o meu presente. Mas o sol depressa se põe, escondendo os seus raios do meu corpo, privando-me daquela sensação de aconchego, de conforto, tirando-me todo o calor que sentia. E tal como o sol desaparece dando lugar a uma noite escura, em que a lua se esconde por entre as nuvens cinzentas que cobrem o céu, também as boas lembranças dão lugar às más recordações. A nostalgia de tempos felizes dá lugar à raiva, à dor e à mágoa. A minha mente recorda agora todas as lágrimas de tristeza choradas ou reprimidas, toda a raiva contida, toda a mágoa escondida, todo o grito sufocado. O fim de todos aqueles momentos felizes, de toda aquela inocência, em parte devido às minhas decisões e às tuas indecisões. Após alguns anos recordo ainda todos os momentos que partilhamos, bons ou maus e sinto um vazio enorme. Já não sei o que é realmente viver ou o que é realmente sentir. Vivo de ilusões, de falsas imagens de felicidade, de sorrisos fingidos, de sentimentos imaginados. No meu mundo já só existo eu, fechei todas as portas impedindo que alguém se aproxime, empurrando-me e condenando-me a mim própria a uma caminho solitário e tortuoso. Sei quantas vezes tentei deixar entrar alguém, um ombro amigo que me pudesse enxugar as lágrimas, mas nunca o consegui fazer.
     Agora olhando novamente pela janela, percebo que o calor que eu senti durante o final de tarde não passou de uma ilusão, apenas a minha pele sentiu aquele calor e a minha alma continuou fria, sem uma réstia de sol que a pudesse aquecer da forma como tu fazias. Já sequei todas as lágrimas, mas ainda não curei todas as feridas. Ao olhar esta noite de verão em que as nuvens cobrem o céu, sinto-me mais uma vez só. O vazio que deixaste em mim não pode ainda ser preenchido, o meu mundo do qual tu fazias parte não pode ainda receber mais ninguém, o meu coração que sempre te pertenceu não pode ainda ser de outro alguém. Olhando uma última vez a noite vejo a tua face, o teu sorriso luminoso, mas não da mesma forma distinta e clara a que eu estava habituada. Aos poucos sei que tu desaparecerás para sempre e será para mim cada vez mais difícil visualizar a tua imagem até que um dia não existirá mais lugar para ti no meu mundo, até que um dia tu desapareças para sempre tal como as nuvens desaparecerão do céu, deixando que milhares de estrelas iluminam a noite conjuntamente com uma enorme lua cheia.               
sinto-me: Indecisa como o tempo
música: Fall to Pieces - Avril

publicado por Morceguinha às 23:17
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2 comentários:
De Katatine a 11 de Julho de 2008 às 23:36
Seu texto ficou muito bonito, bela forma de expressar o seu profundo sentimento. Mas não fique tão triste... tente pensar em lembranças boas, estas são eternas e mais fortes que as ruins, embora todas elas façam parte de nós. Aprenda com a decepção, com a mágua, com a dor... não deixe que elas te dominem e que fiquem estáveis dentro de si, as transforme em aprendizado, experiência, esperança, assim a dor irá se aliviar. Viva bem por si mesma, sem necessitar de outras pessoas para lhe fazer feliz. Esse pode ser o começa de uma nova fase.
Beijos e fique bem


De Melody * a 12 de Julho de 2008 às 14:43
Já sequei todas as lágrimas, mas ainda não curei todas as feridas.

Esta frase! eu estavaa a ouvir a solitude- evanescence
e Este Texto emocionou-me! Tu escreves tão bem amor, mas tao bem! Nao te sei Explicar ao Certo, quando Falas-te dos momentos bons eu tambem me lembrei dos meus e quando falaste dos Momnetos maus tambem me lembrei! Quando escrveste que estava a olhar sem ver, imaginei isso exactament, relembrei porque eu tambem faço isso!
Tu escrves tão bem meu amor! tens mesmo talento, nao o podes desperdiçar! =)
Pow *.* Escreves mesmo bem,
musica+ teu texto= eu noutro lugar
Parece mesmo que deixei de estar no quarto, que deixei de estar fechada e que parece que alguem me lê esse texto para me acalmar!
Sem palavras meu amor! Escreves bem, tem sentimento! cada pequena palavra, frase ou paragrafo transmite um sentimento!
=)
Amei


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